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Como identificar se sua ansiedade precisa de ajuda profissional

Atualizado: 25 de mar.

A ansiedade é uma companheira familiar para muitos de nós. Em sua forma natural, ela funciona como um sistema de alerta interno, nos preparando para enfrentar desafios e nos proteger de potenciais ameaças.


No entanto, existe uma linha tênue entre a ansiedade que nos protege e aquela que começa a tomar as rédeas de nossa vida. Como psicóloga que trabalha diariamente com pessoas que enfrentam diferentes níveis de ansiedade, percebo que uma das perguntas mais comuns antes de iniciar o processo terapêutico é justamente: "quando devo buscar ajuda profissional?".


Esta pergunta carrega complexidades que vão além de uma simples lista de sintomas. Envolve nuances pessoais, contextos de vida e a própria relação que estabelecemos com nossas experiências internas.


Neste artigo, quero compartilhar algumas reflexões que podem te ajudar a navegar por essa questão delicada, baseadas tanto em minha formação em Gestalt Terapia e Experiência Somática quanto na experiência clínica com pessoas que, como você, já se perguntaram se o que sentem merece atenção profissional.


Quando a ansiedade protege e quando ela aprisiona?


A ansiedade funcional tem uma lógica: ela surge diante de algo específico, cumpre seu papel de te deixar alerta, e vai embora quando a situação passa. É proporcional e tem começo, meio e fim. Aquele frio na barriga antes de uma entrevista que some quando você entra na sala é o tipo de ansiedade que, por mais desconfortável que seja, está trabalhando a seu favor.


Já a ansiedade que começa a virar “problema” tem outra textura. Ela aparece sem um gatilho claro, ou de forma desproporcional a situações que, no fundo, você sabe que não são tão graves assim. Ela não vai embora quando a situação passa e, às vezes, ela mal precisa de uma situação pra aparecer. Ela ocupa espaço no seu dia a dia: no trabalho, no sono, nos relacionamentos, no simples ato de planejar a semana. Em vez de te preparar pra agir, ela paralisa.


Sinais que merecem sua atenção:


Não existe uma lista definitiva que sirva pra todo mundo pois cada pessoa carrega sua história, seu corpo, seu jeito de sentir. Mas ao longo dos anos de clínica, alguns padrões aparecem com frequência quando a ansiedade já ultrapassou o limiar do saudável.


Você começou a evitar situações, lugares, conversas e talvez eventos sociais, transporte público, falar numa reunião de trabalho. A evitação traz alívio no curto prazo, mas com o tempo o mundo vai encolhendo, e a ansiedade vai crescendo junto.


O corpo não consegue descansar. Tensão constante no pescoço, nos ombros, na mandíbula. Intestino que não funciona direito. Coração que acelera sem motivo, sono que não descansa, pensamentos em loop, preocupações com situações que ainda nem aconteceram (e que talvez nunca aconteçam), dificuldade de simplesmente estar em algum lugar sem estar mentalmente em outro. Uma sensação de que você não consegue “desligar” mesmo quando quer, mesmo quando está exausto.


Você criou saídas que estão te prendendo. Álcool pra relaxar, procrastinação pra não encarar o que gera ansiedade, precisar de reafirmação constante das pessoas ao redor e distração compulsiva(redes sociais colaborando). São estratégias compreensíveis, mas com o tempo, essas saídas costumam alimentar o ciclo que deveriam interromper.


A relação com você mesmo ficou mais difícil. Talvez esse seja o sinal mais sutil, mas também um dos mais importantes: quando a ansiedade começa a comprometer sua capacidade de estar com você mesmo de um jeito minimamente tranquilo sem autocrítica que não para, sem um julgamento constante sobre o que você sente, e isso merece atenção.


O que a terapia pode oferecer?


Se você se reconheceu em vários aspectos que mencionei, talvez esteja se perguntando o que a psicoterapia poderia oferecer. É importante entender que buscar ajuda profissional não significa fraqueza ou falha pessoal, pelo contrário, é um ato de autocuidado e coragem que demonstra compromisso com seu bem-estar.


A psicoterapia oferece um espaço seguro e confidencial onde você pode explorar sua experiência de ansiedade com alguém treinado para compreender seus mecanismos e ajudá-lo a transformar sua relação com ela. E transformar a relação não significa eliminar a ansiedade: significa parar de guerrear contra ela e começar a entendê-la.


No meu trabalho, eu integro uma escuta que considera tanto o que você pensa e sente quanto o que acontece no seu corpo. Isso porque a ansiedade não vive só na cabeça, ela se instala na respiração, na tensão muscular, nas respostas do sistema nervoso. Trabalhar só com o pensamento, ignorando o corpo, costuma deixar uma peça importante de fora.


O processo terapêutico é diferente pra cada pessoa, mas em geral envolve: entender de onde vem a sua ansiedade (os padrões, os gatilhos, as histórias mais antigas que ela pode carregar); desenvolver recursos reais de autorregulação (não só técnicas pontuais, mas uma relação diferente com os próprios estados internos); aprender a reconhecer os sinais do corpo antes que a ansiedade escale; e, com o tempo, expandir sua capacidade de estar presente, inclusive nos momentos difíceis, sem ser engolido por eles.


Por fim, a terapia ajuda a expandir sua capacidade de estar presente, desenvolvendo maior flexibilidade para navegar por diferentes estados emocionais sem ser dominado por eles.


Por onde começar?


Reconhecer que sua ansiedade pode estar pedindo atenção profissional é um passo importante e corajoso. Se você identificou vários dos sinais mencionados neste artigo, considere buscar uma avaliação inicial. Essa primeira conversa pode ajudar a clarificar o que você está vivenciando e quais caminhos podem ser mais adequados para você.


Lembre-se de ser gentil. A ansiedade não é falha de caráter ou fraqueza e sim uma resposta humana que, em determinadas circunstâncias e por razões complexas, pode se tornar desproporcional ou disfuncional.


Assim como não hesitaríamos em buscar um médico para uma dor física persistente, não devemos hesitar em buscar ajuda para o sofrimento emocional.


A ansiedade bem trabalhada pode se tornar, inclusive, uma porta de entrada para um autoconhecimento que você talvez nem esperasse. Não como consolo, mas como algo que de fato acontece quando você para de fugir dela e começa a entendê-la de verdade.


Quer saber mais?



Clara Naschpitz é psicóloga clínica com formação especializada em Gestalt Terapia pela PUC-Rio e terapeuta em Experiência Somática pela Associação Brasileira do Trauma. Atende adultos online e presencialmente em Niterói, com foco em questões relacionadas a ansiedade, trauma e relacionamentos.

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